Coluna
Leonardo Bezerra
Leonardo Bezerra
Leonardo Bezerra
Doutor em sociologia pela UFRGS
Professor de Sociologia da SEDUC-CE
lrb.souza@gmail.com
A cada quatro anos o debate sobre corrupção no Brasil volta mais intensamente às telas de TV ou nas redes sociais através dos smartphones, não que antes do período eleitoral, esse tema suma do horizonte. Ao contrário, embora aumente o volume de notícias ou a sensação de maior debate sobre a corrupção, o tema é parte do imaginário político brasileiro de cabo a rabo da pirâmide social, das classes sociais e dos nichos específicos.
O senso comum quase sempre toma a corrupção como um tema transversal que atinge brasileiros de todas as idades, raças, credos, gêneros, classes e etc. Frases como “todo brasileiro é corrupto” ou “a corrupção começa quando furamos a fila”, já foram naturalizadas e popularizadas no nosso dia a dia e, diante das redes sociais, dos grupos de famílias do whatsapp, a expansão desses chavões vem sempre acompanhado de uma parafernália tecnológica que age diretamente sobre a população a uma velocidade incrível, difundindo sempre o jargão: “político é tudo igual… por isso não perco minhas amizades por política e nem me envolvo”.
Esse papo tacanho, no entanto, representa algo extremamente complexo, a reprodução do discurso da corrupção em um caráter homogeneizante e que oculta, por meio do seu caráter ideológico, as disparidades de poder, de riqueza e de renda presentes na estrutura social brasileira ou, melhor, nas estruturas, no plural.
Costumamos cair em ciladas de equiparações discursivas em que ser corrupto, por exemplo, pode equivaler a ser esperto. Corrupção é uma prática diferente da esperteza. Este último não é um mero sinônimo. Como nos mostram os clássicos do romance, teatro e música, Ariano Suassuna, no “Auto da Compadecida”, revela um João Grilo que se sobressaí às práticas corruptivas dos poderosos locais. No filme, que foi um difusor exponencial da obra de Suassuna, a esperteza que João Grilo utiliza se vale da mentira e da preguiça, e ela não é utilizada apenas para lidar com a corrupção instaurada entre os poderosos locais, mas também para conseguir a confiança do Coronel e, depois, providenciar o romance de seu amigo, dando vazão não apenas a riqueza que nunca chega, que ele olha e nunca toca, mas sim ao amor que ele próprio, por ser tão esperto, não consegue enxergar como maior bem, ao contrário dos enamorados, um mentiroso e sua amante.
Sujeito e predicado estão situados na mesma sentença, mas produzem sentidos diferentes, não são equivalentes. Dizer que “João Grilo é corrupto” não equivale a dizer que, em relação à produção de sentido, “o padre e o Bispo são corruptos”. Pois o predicado que acompanha os sujeitos não está situado em um contexto social (da produção de sentido, algo factível) de cada um, isso altera o sentido do predicado imposto. Ainda que ele seja idêntico, é incoerente pensar a corrupção de Grilo tal qual a corrupção do clero, e é a Compadecida quem traz (levou, no filme) o argumento de distinção que não nos permite situar a corrupção como equiparável a esperteza, e o que os diferencia é, voltamos a dizer, o contexto.
A corrupção do clero local, o padre e o bispo, está assentada sobre o poder da religião e da riqueza, segundo a Compadecida, não pode ser equivalente ao pobre coitado que sofreu de todas a intempéries de vida e do mundo dos homens e que, por sinal, continua assentado nos estratos mais inferiores da estrutura social. Posso eu condicionar que ambos os sujeitos, João Grilo e o clero, são corruptos? A esperteza, bem como a corrupção, fazem parte do mesmo universo sintático e social, mas o que distingue uma da outra? Afinal, enquanto o primeiro aparece como manha ou capacidade de sobressair ao desafio ou a cilada; o segundo, é classificado como crime, sempre moralmente reprimível e punível.
Essa é uma das temáticas que vêm à tona com o filme, a corrupção e, após a passagem, a advogada, ninguém menos que Nossa Senhora, A Compadecida. E é ela que dá o rumo à cada um no filme. Cada réu tem um destino diferente para as práticas diferentes que praticaram, ora vejamos…
No filme, o clero vai ao purgatório onde seriam purgados dos pecados cometidos em nome do Senhor, a salvação é concedida ao cangaceiro — principal vítima da violência mundana —, mas João, diferente de todos, ganha o retorno à vida, pela qual segue com sua esperteza tentando ganhá-la a todo momento e no mesmo estrato social que iniciou a trama. É preciso burlar, pensa ele, até mesmo a promessa feita por Chicó à Santa.
É nesse ponto de retorno à vida que o brasileiro se encontra e, nesse sentido, é preciso pôr um ponto de diferenciação. Na história mais recente, temos dois casos simbólicos de corrupção: o primeiro, um rombo bilionário dado pelos acionistas majoritários das Lojas Americanas ao Brasil — sim, é preciso dar nome aos bois, as lojas americanas não são os sujeitos da corrupção, mas sim o palco e o instrumento de sua realização — entre os nomes desses suspeitos-golpistas está o de J. P. Lemann, bilionário financiador de deputadas/os e de outsiders da política que, por incrível que pareça, pregaram honestidade, inovação e liberalismo, entregando ao seu país o prejuízo em impostos e etc. O rombo imposto por Lemann repercute na arrecadação federal, na geração de empregos, entre outros condicionantes na vida da população brasileira mais pobre, ou seja, na sua maioria.
Contudo, pouco se fala o nome do Lemann no escândalo. O termo “corrupção” aparece timidamente. Como e em que medida a vida desse bilionário foi abalada? Em nada. Lemann, como muitos outros, está assentado em cima, compõem a classe dominante do país e enquanto destroem o Brasil, são recebidos em mansões banquetes e discutem o rumo do Brasil diretamente com presidentes, senadores, governadores entre outros.
Do outro lado, o segundo caso, refere-se ao Banco Master. Um caso também bilionário de corrupção que envolve personalidades políticas, do judiciário e do meio empresarial que, nesse momento, se mostrou o mais corrupto de todos. Conseguindo gerir uma maquinaria de práticas de corrupção que atravessa todo sistema jurídico e político nacional e regional. A imprensa foca nos senadores e ministros da suprema corte, parece que o empresariado não existe, Daniel Vorcaro, principal peça do tabuleiro, banqueiro, surge como o ponto fora da curva e nem mesmo o Banco Central é investigado. É importante perguntar: por que o foco recaí sobre as pontas das práticas, por exemplo, sobre decisões de ministros — algo por si só gravíssimo —, mas não recaí sobre o Banco Central? O que nos garante que outros casos não estejam ocorrendo dentro dessa estrutura de caixa preta do BACEN?
Enfim, o caso Master e Americanas, revela dois casos de corrupção que vão muito além do ser esperto. Na verdade, eles mostram como não se trata de esperteza, mas sim de controle do poder e de exercício técnico-burocrático sobre o Estado. O brasileiro pobre, como o João Grilo, não conseguiria nem mesmo passar da porta principal do Banco Central ou do Alvorada ou do Supremo Tribunal Federal, no máximo, com certa dificuldade, conseguiria entrar pelos fundos, pela porta de serviço desses palácios. Até porque ser esperto para quem precisa sobreviver, é lutar com as armas que tem contra a morte; mas está no alto escalão do poder e do dinheiro e ser corrupto não é lutar pela vida, ao contrário, é satisfazer-se em função da miséria do outro.
O cidadão comum e trabalhador ao furar a fila está sendo esperto, foi o que lhe foi ensinado pela vida no mundo, afinal, a vida miserável nos obriga a tentar sobreviver na fila do INSS ou na fila do hospital; nos obriga a pensar em adiantar uma compra ou um atendimento bancário, pois as 24 horas que temos no nosso dia a dia de trabalhador não são as mesmas para os bilionários que acordam às 15 horas para resolver seus compromissos que não passam por filas. Na verdade, até a agenda do presidente da República se abre a qualquer hora para o empresariado, não existe fila. Aliás, ou existem filas que não vemos que são furadas a todo momento, por exemplo, quando uma representação de um movimento sindical ou social em geral tenta uma hora na agenda do presidente e, muitas vezes, aguarda anos pela audiência, os lobistas ou o empresário passam na frente.
Recordo o episódio de reclamação do então Senador Eduardo Suplicy de que tentava uma agenda com a presidenta Dilma Rousseff desde 2013, ele dizia que não conseguia esse momento para falar da renda básica de cidadania, mas passou anos para conseguir esse momento. Suplicy, quadro histórico do partido, não conseguiu um lugar na agenda. Em 2022, nem sequer foi convidado para o encontro de economistas do PT em apoio à candidatura de Lula. Nem mesmo para uma autoridade moral, política e histórica do partido foi possível abrir uma agenda. O mesmo não podemos dizer de outros nomes como os Irmãos Batista, o banqueiro André Esteves e tantos outros.
Quando um trabalhador fura a fila do posto de saúde, o faz pela pressa de sobreviver ou resolver o problema de uma vida sofrida como tantas outras e, se percebido, corre o risco de voltar à sua posição de origem na fila ou ir para o último lugar. Faz esse trajeto de cabeça baixa, por duas condições: a primeira, fracassou a tentativa esperta de conseguir o atendimento à sua chaga; a segunda, a moral, sendo julgado por todos da fila, taxado de “corrupto” e, nesse caso, correndo o risco de ouvir: “é por isso que esse país não vai para a frente, a corrupção começa aqui”.
A corrupção não começa ao furar a fila, mas é ali onde a ideologia age, falseando e invertendo a ordem dos valores: dos sujeitos e da moral. A esperteza de quem tenta sobreviver não é equivalente à corrupção. A prática da corrupção que perpassa o gênero humano, em nossa época e em nosso país, não se representa pelo jeitinho brasileiro, mas nas práticas de uso e dominação social e política, impostas pelas elites.
Ser corrupto no Brasil é jogar o jogo dos poderosos. E isso não é exceção, pelo contrário, aquele que é pego nem sempre é punido, existem subterfúgios às elites, aos burocratas, às práticas que deviam ser coercitivas, mas que se tornam nulas diante do poder. Existem os corruptos, aqueles que podem ser corruptos (no Brasil, até ser corrupto exige um certo grau de poder) e que estão nos altos postos, desfrutam da alta concentração de renda e de riqueza. Eles se tornam corruptos em relação ao resto da sociedade que amarga as dores de trabalhar e de sobreviver, ao mesmo tempo em que são achincalhados por essas classes dominantes.
O próprio direito se metamorfoseia em razão da existência de disparidades: roubar uma margarina ou um biscoito para alimentar a família, jamais se equipara legalmente a roubar o país. No entanto, a chance de um pobre ir à cadeia nessa condição, ainda é maior do que a chance de haver a condenação e a prisão de um banqueiro ou de um político ou empresário de elevado prestígio social.
Furar a fila não é um crime, é sim uma esperteza em função da tentativa de, ao menos naquele momento, conseguir um alívio moral ou físico à uma cena triste da realidade cotidiana. Cena esta que já está naturalizada para qualquer trabalhador. Roubar para comer é sim um crime, mas não deve ser punível enquanto tal. E tais práticas de esperteza de longe se diferenciam das práticas de corrupção, não por seu sentido estrito ao termo, mas pelo contexto que precisa ser visto e analisado. Na verdade, o privilégio de utilizar as palavras em sentido favorável à classe, também está condicionado aos que detém a força de usar e de determinar quando tais palavras se tornam instrumentos de reprodução ideológica.
Se há visível discrepância, um contexto brutal que separa tais práticas e sujeitos tão distintos entre si, por que persiste o mito de que todo brasileiro é corrupto, de que o jeitinho brasileiro é algo comum a todos, culturalmente instaurado e deve ser rechaçado da mesma forma que a corrupção, sendo que ambos são naturalizados e normalizados em todos os estratos sociais? E, mais, por que insistimos em comparar o que é incomparável, as prática de corrupção impetradas pelos ricos desse país com a dita esperteza das classes empobrecidas que a utiliza para ganhar algo que dificilmente muda sua realidade, que apenas ameniza o sofrimento diário e também naturalizado, ainda que imponha, geralmente, ao outro uma pequena perda?
Corrupção e esperteza devem ter um tratamento distinto, sobretudo, ao interpretarmos a realidade na qual ambas práticas estão situadas. Jamais poderíamos julgar João Grilo do mesmo modo que os demais e, acertadamente, a compadecida os diferenciou, voltando sempre ao que há de concreto na vida que viveram e não nos sentimentos que tinham, na ingenuidade ou em outros aspectos abstratos que envolveram suas ações. Ela, no entanto, fez com que João se percebesse enquanto vítima do sistema. Ele próprio não conseguia se reconhecer enquanto tal, visto que estava tão imerso na pobreza que até mesmo sua inteligência se tornou inoperante para o reconhecimento de si enquanto vítima. Ele mesmo achou que suas ações eram idênticas a dos seus acusadores e dos seus colegas de banco dos réus, e, como colocou na película, pior, pois ele fazia aquilo sabendo do que fazia.
A verdade envolvendo a prática da corrupção no julgamento foi introjetada pelo Grilo como uma naturalização dessa equivalência, na qual ele era o “ruim” por ter sido esperto; tendo em vista que ele atentou contra a moral estabelecida, contra às normas impostas pela sociedade e fez tudo isso ciente de que fazia, não por ingenuidade. A compadecida lança luz sobre uma realidade ocultada pela verdade do mundo dos homens.
Assim é a ideologia, o falseamento do real — daí a sempre contemporaneidade de Karl Marx —, é pertinente demonstrar que ao justificar a desilusão na política e no mundo, através da reprodução dos jargões que tornam equivalente esperteza dos pobre à corrupção dos ricos, não se está apenas esboçando a visão superficial desse complexo, mas sim reproduzindo a ideologia da conformação que oculta os problemas reais. Se todos somos corruptos, como podemos julgar os poderosos? Se o Lemann e o Vorcaro estão agindo de tal forma, não temos o direito de julgá-los, pois furamos a fila do postinho de saúde, e isso, no imaginário construído ao interesse das elites, é o que mais acontece nesse país.
A classe trabalhadora brasileira é vítima de ideologias como essas, mas culturalmente ela é formada a partir do princípio da honestidade. Desde cedo, somos educados para ser honestos. Ao ponto que até mesmo atos de atentado contra a moral, recorrem à esse princípio para construir justificativas, por exemplo, frases do tipo: “eu sou trabalhador e honesto, tenho orgulho de não pegar no alheio” ou “meu filho pode ser gay, mas é trabalhador e honesto”, entre outras. A esperteza do dia a dia não é demérito para a validação desse princípio, pois a naturalização e a normalização das práticas de corrupção pelas elites, há séculos, foi responsável por também naturalizar e produzir uma ideologia do conformismo, que não apenas lega às classes pobres à miséria, como as faz pensar que são elas próprias responsáveis por sua situação precária. Deixando assim de lado os reais culpados por isso.
A corrupção deve ser combatida, mas jamais equiparada à esperteza dos condenados da terra! Aqueles que se desdobram em mil, mas não para lucrar em cima de vidas e mortes, e sim para alcançar o mínimo de segurança ou garantir o mínimo de conforto ou sobreviver em meios aos mandos e desmandos dos poderosos. Sobreviver a finita-e-eterna injustiça do sistema político-econômico.
A esperteza deve ser vista sob esse mesmo prisma, embora não possamos validar como o comportamento mais adequado para se viver em sociedade, ela também não pode ser extirpada da dimensão cultural, social e moral na qual se situam as classes sociais trabalhadoras e empobrecidas. Existe um abismo entre João Grilo e os demais réus do tribunal divino, como existe entre quem fura uma fila e quem rouba os cofres públicos.
Contudo, o que é mais importante nessa reflexão, é tentar mostrar que não podemos perder de vista que essa pretensa e ingênua unificação entre duas condições humanas não aparece assim à toa, mas sim como justificativa para manter os oprimidos e explorados na conformação do mundo, como responsáveis pelo mal maior. Parte daí a nossa incapacidade de crer e acreditar na mudança, pois a ideologia turva e introjeta uma verdade que entra em nossas mentes e espíritos.
Ela não incide apenas sobre o imaginário, estende-se sobre o concreto, ao aceitar que nada muda por que todos somos iguais, se esquece do horizonte de uma realidade: não somos todos iguais. Uns se tornam banqueiros e outros trabalhadores. Uns detém o poder, outros não. Aqueles que estão em cima acham conveniente manter o regime de descrença no ser humano. Segundo eles, todos são iguais e aqueles que estão sobre os grilhões da exploração, cuja desesperança o faz desacreditar não somente no ser humano, como também em si mesmo, fatalmente são levados a crer que, de fato, foram ensinados a serem espertos no mundo. E mais, pensam, se eu chegar lá (no topo, algo inalcançável, na realidade) não farei diferente, porque sempre foi assim… sempre fui assim… esperto, sou corrupto.
Afinal, pode ser corrupto o miserável que nada pode fazer além de sobreviver em meio ao mundo dos homens?
É preciso desmistificar esses mitos e combater a ideologia. Uns o fazem apelando à nossa senhora compadecida, na hora do juízo final, outros o fazem nas trincheiras…
São Benedito, Ceará, 6 de Setembro de 2026.
* Imagem do filme "O Auto da Compadecida" (2000), extraída do site: https://www.cnnbrasil.com.br/pop/cinema/o-auto-da-compadecida-2-ganha-primeira-imagem-oficial-veja/.