“E é na fronteira que os poemas se encontram, cheios ou vazios, longos ou curtos, os versos preenchem um enclausuramento, e a experiência de retornar a “vida normal” é festejada, austeramente, é claro. A ausência continua a fazer parte de toda a completa experiência de viver apaixonadamente. Por isso, o livro guarda sabor de uma tarde quente que lutou contra a chuva para que o sol despontasse, e vitoriosa, nos convida a sair de casa e cair no mundo.”
Maycom Cunha
A partir desse livro, a Fulor de Mulungu inaugura uma jornada de enfrentamento, sobretudo, de luta coletiva para provocarmos rupturas. É um espaço que se abre para o diálogo de diferentes formas de expressão. Trata-se de um longo trabalho que contempla literatura, cinema e política, em especial voltando-se para os gritos que emergem em meio a pandemia do COVID- 19. O clima de confinamento não foi suficiente para inibir esse empreendimento de ação. Ao contrário, partindo do inóspito, rompemos o simulacro de dor e de prisão, deixando as vozes falarem, as flores desabrocharem, e celebramos com o mundo a indignação e a vitória diária de sobreviver em todas as dimensões possíveis.
"Toda a poíesis do jovem poeta/antropólogo faz um movimento de fora para dentro. O que está refletido fora é o reflexo de seu mundo interior, das descobertas e não descobertas de suas dobras, das ondas que se formam e, em bolhas, se dissolvem, voltando ao início para novamente se formar e se alimentar das memórias protegidas pelos catáfilos e pelo retorno das águas ao grandioso “vale” Seridó. Por mais belas e cintilantes que se apresentem as Túnicas, nenhuma pretensão será capaz de revelar completamente a profundidade impressa em sua identidade, que o faz único; esse menino-rapaz-homem que se reconhece gigante e pequeno ao mesmo tempo ao se reconectar ao divino, [...], revelando as profundas raízes plantadas num solo que o criou e, causticante sob o sol, preenche-lhe o espírito e o torna pleno. Esse é Maycom Cunha, uma descoberta recente, importante e significativa para quem aqui veio e já imprimiu a sua marca".
Maria do Socorro Santos Ribeiro
Mais alguns comentários sobre o livro Cebola Cósmica:
“É muito bonito conhecer alguém por meio de palavras escritas. Conheço Maycom Cunha pessoalmente há alguns anos, mas intimamente só posso dizer que realizo agora depois de ler suas poesias. Criei a impressão de que fomos amigos de infância mesmo sem saber da existência um do outro quando éramos crianças. Existe um sertão compartilhado dentro da gente. O livro de Maycom Cunha é como uma cebola, um mulungu, pé d’angico, sombra de cajueiro, som de ondas do mar quebrando. Algumas partes são como as lembranças que temos de nossas avós, fortes e doces. Em outras páginas sentimos o prazer e o desespero de se descobrir apaixonado. Não sobra espaço para as superfícies, tudo é profundo e intenso. Maycom Cunha me ensinou que ‘ausências arranham’ e que ‘a solidão tem tons de céu entardecido’. Para aqueles que irão ler esse livro, deixo um aviso: suas poesias-ensinamentos podem funcionar como cascas ou raízes, revelando tudo que você sempre costumou esconder para si mesmo ou apontando os arbustos que valem a pena se agarrar quando a vida parece querer te empurrar de um precipício."
Marcos Mariano
"As camadas de uma cebola, UMA CÓSMICA CEBOLA! As camadas de um homem que insufla seu anseio de se fazer ver como é, explodindo e se despindo delas, para se mostrar verdadeiramente o seu mundo condensado num só grito, como nos lembra Florbela Espanca em seu poema 'Ser poeta'. Assim é Maycom despindo-se de si por meio de sua lírica, que seduz pelo seu descompasso, atrai pelas suas imperfeições, nos contagia pelo seu olhar poético. Uma poesia viva certamente. Aquela que quebra a métrica parnasiana para nos ensinar que o verdadeiramente importante reside em sentir e não em ler. O que Maycom impacta em nós? O que de nós ele rouba e aprisiona para si com o seu mundo desnudado sob rimas e estrofes? Seria ele o Louco de Khalil Gibran a nos bendizer por termos roubado suas camadas que mascaravam seu verdadeiro eu? Nada sei. Apenas digo que uma cósmica cebola o fez deixar seu rosto desnudo, tocar o sol pela primeira vez e, com isso, nos fazer arder em rimas mal traçadas de um universo terrestre e extraterrestre. Um mundo cósmico que nos agarra, nos desvirgina de nossa inocência e segue seu fluxo, como o amor do vento em Zila Mamede: intrometido, aos pulos, solto vadio... invade nossa janela, deixa nosso quarto vazio."
Hallyson Nobrega
"Que outra perfeita analogia faríamos ao Mundo, senão “Cebola Cósmica"? Viver, nada mais é, do que o seu descascar. Tempero apurado ao sabor do tempo, as emoções, quando tocadas pela faca afiada da vida, fazem-nos, cortados, chorar. O navegante árido."
Roque Chianca