10 jun. 2026, São Luís - MA
Ao retornar para casa após mais um dia de trabalho, atravesso a importante Avenida Jerônimo de Albuquerque, em São Luís, Maranhão. Essa avenida homenageia o administrador colonial Jerônimo de Albuquerque Maranhão (1548-1618), filho de Jerónimo de Albuquerque (1510-1584), capitão-mor de Pernambuco, e de Muyrã Ubi (1510-1558), indígena tabajara.
Em 1599, Jerônimo de Albuquerque Maranhão participou da fundação de Natal, no Rio Grande do Norte, após a expulsão dos franceses da capitania do Rio Grande. Posteriormente, esteve envolvido nas campanhas contra a presença francesa no Norte do Brasil, no contexto da chamada França Equinocial, na região do atual Maranhão. Nesse período, atuou ao lado de aliados indígenas na expulsão dos franceses, destacando-se a Batalha de Guaxenduba, em 1614. Viveu, ainda, sob o contexto da União Ibérica (1580–1640), quando Portugal e Espanha estiveram sob a mesma coroa, experiência que marcou profundamente a administração colonial portuguesa.
Nessa mesma avenida por onde passo diariamente, observei durante muito tempo um grande galpão acinzentado, com aparência de obra inacabada. Mesmo após sua inauguração, a fachada pouco se alterou, manteve-se como um volume simples, quase industrial, recebendo apenas um letreiro — Dunamis. Descobri então tratar-se de uma igreja, a Igreja Dunamis de Sião.
A Dunamis foi inaugurada poucos dias antes de um marco arquitetônico religioso, desta vez no outro lado do Atlântico: o Templo Expiatório da Sagrada Família, em Barcelona, na Espanha. Projetado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí (1852-1926), sua construção teve início em 1882 e só foi concluída em junho de 2026, com o término da torre central dedicada a Jesus Cristo. Trata-se de um edifício cuja presença se impõe na paisagem urbana, visível de diferentes pontos da cidade.
Guardadas as proporções entre os dois edifícios religiosos, chama atenção a diferença de linguagem arquitetônica e de sentido simbólico. Gaudí acreditava que formas, cores e texturas constituíam uma linguagem divina presente na natureza, e que a arquitetura deveria ser uma tentativa de tradução dessa linguagem. Nesse sentido, o arquiteto catalão é herdeiro de uma longa tradição que compreende a arquitetura como expressão do sagrado, quase como uma pedagogia visual de Deus no espaço.
A Igreja Católica, ao longo dos séculos, alimentou essa dimensão simbólica, transformando suas igrejas em monumentos cuja função era também comunicar e educar o olhar e a sensibilidade dos fiéis. Essa capacidade comunicativa, no entanto, foi sendo tensionada ao longo da modernidade. O escritor francês Victor Hugo (1802–1885), em O Corcunda de Notre-Dame (1831), por meio do clérigo Claude Frollo, profetiza: “Ceci tuera cela” (“isto matará aquilo”), referindo-se à possibilidade de a imprensa de Gutenberg superar a arquitetura como principal meio de comunicação simbólica com o povo. Trata-se, em última instância, de uma reflexão sobre o papel social da arquitetura nas culturas humanas.
Ao observar a fachada da Dunamis, permaneço com algumas dúvidas. Trata-se, antes, de uma arquitetura replicada por muitas outras denominações protestantes, especialmente pentecostais e neopentecostais: estruturas de volume simples, frequentemente cúbicas ou retangulares, com fachadas discretas, quase industriais, às vezes reduzidas a um grande salão com um hall de entrada funcional, lembrando mais um edifício administrativo do que um templo tradicional.
Se antes Deus parecia “falar” às pessoas por meio das formas, dos traços, das cores, dos ângulos, das direções e da materialidade da arquitetura, hoje por quais linguagens essa comunicação se realiza?
Para o filósofo inglês Roger Scruton (1944–2020), a arquitetura pode ser lida como um “rosto” do mundo humano, uma superfície expressiva capaz de transmitir sentido, beleza e pertencimento. Em sua crítica ao mundo contemporâneo, Scruton observa que o abandono de noções clássicas de Beleza e Harmonia contribui para o empobrecimento simbólico do espaço urbano, o que inclui também os edifícios religiosos.
Nesse sentido, as cidades, e suas igrejas, parecem seguir um mesmo movimento de esvaziamento formal e simbólico. O mundo contemporâneo avança em direção a um certo desencantamento, no qual o “rosto” de Deus parece progressivamente apagado das formas do próprio mundo.
A inauguração da Torre de Jesus Cristo na Sagrada Família pode ser vista, talvez, como uma súbita lufada de um vocabulário arquitetônico que já foi mais comum às culturas urbanas: a tentativa de fazer com que as formas voltem a significar, e com que a cidade volte a ser um espaço de leitura simbólica do mundo.
19 jun 2026, São Luís-MA
A descoberta de Reinaldo Arenas (1943–1990) foi, de longe, uma das experiências literárias mais marcantes que tive nos últimos anos. Nascido na província de Holguín, em Cuba, Arenas possui uma biografia espetacular, no sentido mais próprio do termo.
Entusiasta da Revolução Cubana, integrou as frentes juvenis revolucionárias que contribuíram para a derrubada do ditador Fulgêncio Batista. Homossexual assumido, foi posteriormente perseguido pelo governo de Fidel Castro e teve sua produção literária censurada. Chegou a ser preso sob controversas acusações de delitos sexuais e, após sua libertação, passou a viver em condições precárias, sobrevivendo em grande parte graças à ajuda de amigos.
Para que seus textos fossem publicados, precisou contrabandeá-los para fora da ilha. Seus manuscritos eram recebidos por amigos e editores no exterior, especialmente na França e nos Estados Unidos, onde acabavam publicados.
Em diversas ocasiões tentou deixar Cuba, mas teve seus pedidos negados. Segundo relatava, sua condição de escritor tornava inconveniente para o regime que ele emigrasse e se transformasse em uma voz dissidente no exterior. Contudo, em 1980, uma crise desencadeada pela invasão da embaixada do Peru, em Havana, por milhares de cubanos em busca de asilo político, levou o governo a flexibilizar a saída de cidadãos da ilha. O resultado foi inesperado, mais de 120 mil pessoas deixaram Cuba pelo porto de Mariel em direção à Flórida, episódio que ficaria conhecido como o Êxodo de Mariel. Para Fidel Castro, tratava-se também de uma forma de expurgar da nação aqueles considerados indesejáveis.
Arenas fez parte desse movimento migratório e passou a viver em Miami, próximo ao mar que tanto admirava. Diagnosticado com HIV/Aids, viveu seus últimos anos sob o peso da doença e do exílio, até suicidar-se em 1990.
Entre internações e caminhadas pela praia, escreveu sua autobiografia, “Antes que Anoiteça”, publicada postumamente em 1992. Trata-se de um texto visceral e eloquente, escrito por alguém plenamente consciente de que já não tinha nada a perder. Nele vemos o colorido dos ideais revolucionários que alimentaram a Revolução Cubana de 1959, o entusiasmo das transformações sociais e as esperanças de uma geração. Em contrapartida, acompanhamos a consolidação de um regime autoritário e os modos pelos quais os discursos políticos são gradualmente convertidos em instrumentos de controle.
A sexualidade surge como um dos fios condutores da narrativa. Arenas jamais a escondeu; ao contrário, foi por meio dela que compreendeu não haver mais lugar para si no regime que ajudara a defender na juventude. Como escritor, recusou-se a aderir ao realismo socialista e desenvolveu uma linguagem própria, imaginativa, leve e profundamente inventiva — algo que hoje talvez chamássemos de poética, embora ninguém saiba exatamente o que isso significa.
“Antes que Anoiteça” exibe a mesma intensidade vibrante e libertadora, ao mesmo tempo que molda o sofrimento, que caracterizaram seu autor.
[Série de textos sobre as diversas literaturas produzidas na América Latina, com análises individuais de obras e países]